.

TENDÊNCIAS/DEBATES
A
ditadura do crime de ódio
CARLOS GIANNAZI
20
de junho de 2010
Os homossexuais é que são privados desse
direito à liberdade de expressão e, não
raramente, chegam a ser mortos por exercê-lo
No
Brasil, uma pessoa de orientação homoafetiva
é assassinada a cada três dias, tornando
o país um dos mais homofóbicos do mundo,
com a tenebrosa estatística anual de 198
mortes violentas nessa área.
Enquanto
isso,o vereador paulistano Carlos Apolinario,
que parece viver ainda na Idade Média, brinca
com coisa séria folclorizando e reforçando,
em seus posicionamentos, os crimes de ódio
contra seres humanos -sujeitos de direitos
fundamentais-, que ousam manifestar publicamente
a sua orientação sexual "diferente".
Em
artigo publicado neste espaço, no dia 7
de junho, intitulado "A ditadura gay",
ele tenta vender a ideia de que algumas
ações do poder público e leis que visam
combater o preconceito, a discriminação,
a intolerância e a violência da qual essa
população é vítima não passam de exclusividade
e privilégio patrocinados com o erário público.
Como
exemplo, ele cita a autorização dada pelo
Ministério Público e pela Prefeitura de
São Paulo para que a Parada do Orgulho Gay
seja realizada na avenida Paulista e o convênio
do município com a ONG Casarão Brasil, que
faz um importante trabalho em defesa da
vida, da saúde e da inclusão de centenas
de pessoas.
Numa
sociedade heterossexista, na qual a preferência
pelo sexo oposto é a norma, qualquer outra
orientação sexual é considerada doença patológica,
desvio de comportamento/caráter, crime ou
pecado, trazendo como consequência a humilhação,
a ofensa e a perseguição tanto física (e
muitas vezes letal) como psicológica.
Assim
como o racismo é crime inafiançável e imprescritível
pela Constituição e a violência contra a
mulher é criminalizada pela Lei Maria da
Penha, temos a luta pela criminalização
da homofobia presente no projeto de lei
122, em trâmite no Congresso Nacional.
Apolinario,
no seu texto, afirma que a criminalização
da homofobia coloca em xeque o direito de
liberdade de expressão, quando, na verdade,
os homossexuais é que são privados desse
direito e, não raramente, mortos por exercê-lo.
O
que está em jogo é o direito à cidadania,
que só pode ser construída através de políticas
de Estado. Ao apresentar projeto de lei
criando o Dia do Heterossexual, o vereador
só confirma sua militância irônica, se valendo
de caricaturas e estereótipos de não héteros.
É bom lembrar que a OMS (Organização Mundial
da Saúde) retirou a homossexualidade de
sua lista de doenças mentais em janeiro
de 1993, o que foi um enorme avanço, mas
ainda insuficiente, para barrar o preconceito.
O
mesmo já fizeram os Conselhos Federal de
Medicina e de Psicologia. Por isso, defendemos
a punição de pessoas físicas ou jurídicas
que violem os direitos de quem tem orientação
sexual homossexual ou identidade de gênero
diferente.
No limiar desse novo marco civilizatório,
em breve não precisaremos mais de leis específicas
que protejam idosos, crianças, homossexuais,
negros e mulheres, pois o respeito à diversidade
e às diferenças já estará incorporado à
cultura e à visão tanto do novo homem quanto
da nova mulher.
CARLOS GIANNAZI é
deputado estadual pelo PSOL na Assembleia
Legislativa de São Paulo.
|