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Fatec de Barueri

Acusado de assédio moral, diretor de Fatec se explica à Comissão na Assembleia

Instituição é a mesma em que professora foi alvo de campanha de blog por usar materiais com "viés ideológico" em sala de aula


por Bruna Carvalho — publicado 11/12/2013 06:34


O diretor da Fatec de Barueri, Evandro Cleber da Silva, compareceu nesta terça-feira 10 à Assembleia Legislativa de São Paulo para dar explicações sobre as acusações de assédio moral, cerceamento e perseguição ideológica feitas contra ele por professores e alunos da instituição, controlada pela autarquia Centro Paula Souza, do governo de São Paulo. A faculdade é a mesma em que uma professora foi alvo de campanha difamatória iniciada pelo blog “Escola Sem Partido” por usar em sala de aula textos de “viés esquerdistas”, entre eles artigos publicados no site de CartaCapital.

A convocação do diretor, realizada a pedido do deputado Carlos Giannazi (PSOL) à Comissão de Educação e Cultura, foi acompanhada por docentes e membros do Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (Sinteps). Diante do exposto, o presidente da comissão, deputado João Paulo Rillo (PT), determinou que o caso fosse levado ao Ministério Público do Estado, ao Ministério Público do Trabalho, e ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), cuja gestão tem nas Fatecs uma de suas principais bandeiras eleitorais. Segundo Rillo, também será votada na comissão a convocação de Laura Laganá, diretora-superintendente do Centro Paula Souza.

Segundo relatado, os episódios de intimidação ficaram mais evidentes depois que um grupo de professores se opôs à tarefa extra de abrir e trancar as salas de aula da unidade, bem como se responsabilizar pelo equipamento nelas instalado. “A partir do caso (do trancamento das salas), os que reagiram passaram a sofrer mais explicitamente atitudes de retaliação”, disse Cléo Tibiriçá, a professora de Comunicação e Expressão que debateu em aula os "textos esquerdistas".

De acordo com as denúncias, os docentes que se posicionaram contra o Evandro da Silva tiveram prejuízos em suas carreiras acadêmicas e foram impedidos de usar espaços como o auditório e laboratórios para atividades educativas. O diretor da Fatec Barueri negou as acusações e se disse aberto ao diálogo. Silva afirmou que as decisões referentes à abertura e o trancamento das salas de aula foram tomadas de forma colegiada diante da falta de funcionários que pudessem realizar essas tarefas. “Sempre requisitei (o uso do auditório e de laboratórios) e nunca tive problemas de usar esses espaços e os alunos sempre tiveram cuidado e zelaram pelos equipamentos. De uns tempos para cá, todas as solicitações que eu fiz foram negadas”, disse o professor Laerte Fedrigo.

Segundo apontaram alunos e professores, em uma das ocasiões, no final de outubro, os professores Tibiriçá e Fedrigo tiveram o acesso ao laboratório de informática negado sem nenhum motivo aparente para fazer uma atividade de iniciação científica. Os alunos em seguida teriam sido convocados a uma reunião com o diretor no qual ele teria criticado os docentes, dizendo que eles faziam apologia político-partidária durante suas aulas. “Há um grupo reacionário forte. E, para eles, tudo diferente do que eles fazem é de esquerda. E para nós não interessa se é de direita, de esquerda, de centro. A questão é a democracia e o livre exercício da docência, a ampla discussão e a transparência do que acontece dentro da faculdade. Se na faculdade não há embate bom, onde é que vamos ter?”, questionou a professora durante a audiência..

Evandro Silva negou quaisquer tipos de perseguições de caráter ideológico contra o grupo de docentes na Fatec Barueri. "Não sei o que acontece. Apontar o dedo para mim e dizer que eu estou perseguindo? É muito frustrante”, afirmou. “Essa história tomou uma dimensão que parece que eu estou vestido de representação política. E não é isso”, disse. "Também sou professor, e tenho perspectiva de ter uma carreira. Vocês conseguiram denegrir minha carreira logo no início.”

Cléo Tibiriçá foi acusada pelo blog “Escola Sem Partido” de colocar em prática um “plano de ensino” para criar “a maior aversão possível a tudo o que não se identifique com uma visão esquerdista ou progressista da sociedade, da cultura, da economia e da história”. Na lista, estão artigos publicados no site de CartaCapital e textos do historiador marxista Eric Hobsbawn, do sociólogo Ruy Braga, do economista Fernando Nogueira da Costa e a música “Tanto Mar”, de Chico Buarque.

O blog, que chegou a reproduzir também uma troca de e-mails da professora com seus alunos, foi obrigado a retirar do ar as postagens em que se referia a Cléo Tibiriçá, em cumprimento à decisão da 2ª Vara Cível de Barueri. “Lá dentro (da Fatec de Barueri) criou-se uma cultura de denuncismo e de perseguição que permite que qualquer aluno mal intencionado faça uma denúncia a qualquer blog mal intencionado e prejudique a carreira de uma docente de mais de 30 anos sem nenhuma mancha”, disse a professora.

Cobrado a tomar uma atitude em relação à acusação contra Tibiriçá e seu plano de aulas, Evandro Silva disse que não houve um posicionamento da direção da faculdade e da coordenação do curso, pois a docente não os procurou para relatar o caso do blog.

Reposição de aula sem alunos Em outro caso, um dos professores presentes na sessão, Rony Hergert, relatou que possuía contrato com a Fatec de Barueri até dezembro de 2013, mas foi demitido em julho, apesar de ser candidato natural a assumir disciplinas de uma docente afastada. Segundo ele, os alunos teriam ficado em prejuízo acadêmico, pois não havia professores para substituir sua cadeira nas disciplinas jurídicas do curso de Comércio Exterior.

Hergert relatou que durante o semestre teve de faltar às aulas por cerca de 20 vezes no semestre devido a problemas de saúde e por ter cargo na diretoria do Sinteps. “O diretor Evandro me obrigou a repor todas essas aulas na primeira semana de julho. Eu fui todos esses dias com a Fatec vazia. Acho que a secretaria funcionou dois dias se muito. Sem nenhum aluno. Só com o pessoal da segurança”, disse, acrescentando inclusive que o sistema de lançamento de notas e faltas já havia sido encerrado. “Foi uma verdadeira prisão administrativa que eu cumpri.”

Após a exibição de imagens em vídeo feitas pelo professor nas quais ele entrava na unidade no dia 6 de julho completamente vazia, em sua defesa, o diretor afirmou que as datas para a reposição foram acordados entre o próprio professor e a turma. E que apesar de o sistema de lançamento de notas já ter sido encerrado, era possível que fosse enviada uma errata para corrigir a questão.